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7 grandes escritores negros da literatura brasileira

7 grandes escritores negros da literatura brasileira

Conheça um pouco mais sobre a literatura feita por escritoras e escritores não-brancos

Embora ao longo de nossa trajetória acadêmica sejamos apresentados a diversas obras literárias e autores, sabe-se que o universo literário é majoritariamente branco e masculino. Entretanto, na história, não faltam grandes escritoras e escritores negros que revolucionaram a literatura e que merecem reconhecimento.

Esses grandes nomes foram fundamentais para construção do patrimônio literário brasileiro. E, muitas vezes, é a obra deles que aborda questões de representatividade negra e expõe o cotidiano, problemas sociais e histórias vivenciadas pelas pessoas negras no Brasil.

Sendo assim, listamos 7 grandes escritoras e escritores negros que mudaram o rumo da literatura brasileira.

E começamos essa lista de grandes escritores com um dos nomes mais importante da literatura brasileira: Machado de Assis.

Machado de Assis

Escritor negro Machado de Assis

Além de um grande escritor, Machado de Assis foi jornalista, contista, cronista, poeta, romancista, teatrólogo e crítico literário. E torna totalmente dispensável qualquer apresentação sobre as suas diversas qualidades literárias!

A abolição da escravatura no Brasil aconteceria apenas meio século após o nascimento de Machado de Assis. Filho de um pintor de paredes negro e de uma imigrante portuguesa, Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1839 e foi fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Além disso, ocupou, por mais de 10 anos, a presidência da Academia.

Em 1860, Machado é convidado por Quintino Bocaiúva a participar da redação do Diário do Rio de Janeiro. Nessa época também escrevia regularmente para a revista O Espelho, onde estreou como crítico teatral, a Semana Ilustrada e o Jornal das Famílias, onde publicava seus contos.

Mas em 1861 que Machado de Assis publicou seu primeiro livro a tradução de “Queda que as mulheres têm para os tolos”. Já seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872.

O tratamento dado para Machado de Assis ao longo da história representa um dos grandes exemplos de racismo no Brasil. Ao longo dos anos, a negritude do autor foi omitida, a fim de torna-lo mais aceitável. Assim, da mesma forma que a se perpetua a polêmica relacionada à traição ou não de Capitu a Bentinho, a polêmica em torno da cor da pele de Machado de Assis ainda persiste.

Principais obras de Machado de Assis

  •         O Alienista 1882
  •         Dom Casmurro 1899
  •         Memórias Póstumas de Brás Cubas 1881
  •         Quincas Borba 1891
  •         O cortiço 1890
  •         Helena 1876

Lima Barreto

Escritor negro Lima Barreto

Afonso Henriques de Lima Barreto, conhecido como Lima Barreto, foi um grande jornalista, escritor brasileiro romancista da primeira república e importante escritor do Pré-Modernismo, período histórico que precedeu a Semana de Arte Moderna.

O escritor Lima Barreto nasceu em 1981, no Rio Janeiro, mestiço, pobre e sua avó materna foi uma escrava alforriada. Nesse contexto, Lima precisou enfrentar o preconceito a vida toda, mas mesmo diante da adversidade foi responsável por publicar vários romances, contos, sátiras e crônicas. Além disso, também publicou uma vasta obra em jornais e revistas populares ilustrados e periódicos anarquistas do início do século XX.

Em 1909, Lima Barreto estreou no mundo literário com a publicação do romance “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. A obra ousou ao abordar o racismo como tema central, uma vez que narra a trajetória de um jovem mulato que, ao sair do interior, sofre ataques motivados por discriminação racial.

Mas foi em 1915, que Lima Barreto publicou o famoso livro “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, obra-prima obrigatória em curso de graduação em Letras e de extrema importância para história do Brasil. Nesse livro, Lima Barreto aborda a vida política no Brasil após a Proclamação da República.

Principais obras de Lima Barreto

  •         Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909)
  •         Triste fim de Policarpo Quaresma (1911)
  •         Numa e ninfa (1915)
  •         Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
  •         Os bruzundangas (1923)
  •         Clara dos Anjos (1948)

Cruz e Sousa

Escritor negro Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa era filho de escravos alforriados, que acabou nascendo livre em 1861 e se tornou o mais importante poeta simbolista brasileiro. De acordo com declaração do crítico literário Antonio Cândido, o escritor Cruz e Souza foi o único escritor bem-afamado de pura raça negra na literatura brasileira.

Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, o autor é considerado um dos precursores do Simbolismo no Brasil. Com os livros Missal (poemas em prosa) e Broquéis (versos), o poeta inaugurou oficialmente o movimento literário, no século XIX.  

O movimento do Simbolismo brasileiro surgiu como forma de negar a realidade subjetiva, marcada por um período de frustração e medo. Mas além disso, o período foi marcado por uma resistência às características dos movimentos Realismo e Naturalismo, que aconteciam na mesma época.  

Sendo assim, em 1885, o amante das letras, Cruz e Souza estreia na literatura brasileira com o livro de poemas e prosa Tropos e Fantasias, em parceria com Virgílio Várzea, no qual ficam claras algumas características marcantes do Simbolismo.

Principais obras de Cruz e Souza

  •         Missal (1893)
  •         Broquéis (1893)
  •         Tropos e fantasias (1885)
  •         Evocações (1898)
  •         Faróis (1900)
  •         Últimos Sonetos (1905)

Abdias Nascimento

Escritor negro Abdias Nascimento

Já o escritor Abdias Nascimento foi grande ativista dos direitos civis e humanos da população negra na luta contra a discriminação racial e pela valorização da cultura negra. A sua militância começou na década de 1930, quando integrou a Frente Negra Brasileira, em São Paulo e participou do 1º Congresso Afro-Campineiro, com a finalidade de promover formas de resistência à discriminação racial.

Nascido em 1914, em uma família negra e pobre da cidade de Franca, interior do Estado de São Paulo, Abdias adquiriu, durante sua infância, os aprendizados dos afrodescendentes mais velhos, que eram repassados por meio de rodas de conversa.

Sendo assim, entre 1944 e 1968, Abdias foi responsável pela criação do Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de Janeiro. Durante essa fase, presenciou a inclusão de artistas afrodescendente no ambiente teatral brasileiro.

Mas além de atuar como político, ator, professor universitário, poeta, escritor e dramaturgo, Abdias é considerado como um dos maiores expoentes da cultura negra. E em 2010, foi indicado oficialmente ao Prêmio Nobel da Paz.

Principais obras de Abdias Nascimento

  • Sortilégio II: mistério negro de Zumbi redivivo.
  • Axés do sangue e da esperança, (Orikis).
  • Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. v. 1, Precursores. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
  • O negro revoltado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (com trabalhos apresentados no Primeiro Congresso do Negro Brasileiro, Rio de Janeiro, 26/08/1950 a 04/09/1950).
  • Combate ao racismo: discursos e projetos, 6v. Brasília: Câmara dos deputados, 1983.
  • O quilombismo: uma alternativa política afro-brasileira. In: Afrodiásporas. Revista de Estudos do Mundo Negro. ano 3, n. 6 e 7, abr./dez. 1985.

Grandes escritoras negras brasileiras

Ultimamente, muito tem sido falado sobre feminismo e a atuação da mulher na sociedade, tema que foi, inclusive de redação do Enem. Mas nem sempre foi assim. Seja nas artes, no empreendedorismo feminino e até na literatura, a história é predominantemente masculina.

Desta forma, durante muito tempo, as mulheres foram proibidas de escrever. Por isso, até hoje, podemos observar os efeitos dessa discriminação no nosso dia-a-dia, uma vez que há um número muito menor de obras escritas por mulheres, especialmente em nossa literatura.

Assim, a Academia Brasileira de Letras reflete esse triste desequilíbrio: das 40 cadeiras disponíveis para membros, apenas cinco são ocupadas por mulheres. Mas, mesmo com a falta de incentivo do universo literário, o que não falta são grandes escritoras brasileiras, especialmente negras, que merecem destaque.

Carolina Maria de Jesus

Escritora negra Carolina de Jesus

A escritora, poetisa e compositora Carolina de Jesus, foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil e é considerada uma das mais importantes do país. Carolina é a autora do best seller autobiográfico Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960.

Neta de escravos, filha de uma lavadeira analfabeta, Carolina de Jesus nasceu no interior de Minas, em 1914, em uma família com mais sete irmãos. Favelada e catadora de papel, ela teve sua vida atravessada pela miséria e pela fome, mas como forma de manifesto social, escrevia para fugir da sua dura realidade.

Moradora da favela do Canindé, em São Paulo, Carolina dedicava seu tempo durante o dia para escrever e, à noite, trabalhava como catadora de papel, onde recolhia e guardava todas as revistas que encontrava para ler. Mas foi em 1941, que ela mudou o rumo da sua história ao levar um poema escrito por ela, em louvor a Getúlio Vargas, na redação do jornal Folha da Manhã. 

Seu poema e sua foto foram públicos no Jornal, no dia 24 de fevereiro. Mas ela não parou por aí: Carolina continuou levando seus poemas regularmente para a redação e acabou ganhando o apelido de Poetisa Negra, conquistando cada vez mais admiradores.

Mas foi somente em 1958 que o jornalista Audálio Dantas descobriu a incessante luta de Carolina de Jesus e publicou seu diário, com tiragem de dez mil exemplares.  

Principais obras de Carolina de Jesus

  •         Quarto de despejo (1960)
  •         Casa de alvenaria (1961)
  •         Diário de Bitita (1986)
  •         Meu estranho diário (1996)

Maria Firmina dos Reis

Escritora negra Maria Firmina

Afrodescendente nascida no Maranhão, em 1825, Maria Firmina viveu sua vida imersa em um contexto de extrema segregação racial e social. Mas em 1859, ela rompeu todas as barreiras de preconceito na literatura brasileira e publicou seu romance Úrsula.

Úrsula foi o primeiro romance abolicionista no Brasil e o primeiro a ser escrito por uma mulher negra. Mas além disso, no auge da campanha pela abolição da escravatura, em 1887, Maria Firmina, publicou sua obra A escrava, que retratava os horrores da escravidão e reforçava sua postura antiescravista.  

Além de grande escritora romancista, Firmina marcou presença constantemente na imprensa, publicando poesias, crônicas, ficção, artigos críticos para os jornais maranhenses. Portanto, não é exagero quando falam que Maria Firmina é um exemplo de mulher negra guerreira que, literalmente, desafiou o preconceito do seu tempo.  

Principais obras de Maria Firmina

  •         Úrsula
  •         A escrava (1887) – conto
  •         Cantos à beira-mar (1871) – poesias
  •         Hino da libertação dos escravos (1888) – letra e música
  •         Hino à mocidade – letra e música
  •         Auto de bumba meu boi – letra e música

Conceição Evaristo

Escritora negra Conceição Evaristo

E, para finalizar nossa lista, não poderíamos deixar de mencionar Maria da Conceição Evaristo de Brito, que representa as escritoras negras contemporâneas. Nascida em uma família pobre na periferia de Minas Gerais, sua trajetória de vida é marcada por muita luta.

Maria Conceição Evaristo é segunda filha de 9 irmãos, sendo a primeira a conseguir um diploma universitário em Letras. A escritora brasileira precisou conciliar os estudos da vida universitária com a vida de empregada doméstica.

Conceição é uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, que levanta sua voz de forma ativa nos movimentos pela luta negra. A escritora também papel essencial na denúncia constante sobre a perpetuação de estruturas sociais que fazem com que escritores negros tenham uma enorme dificuldade em ingressar no universo literário.

Entre seus livros mais famosos está Olhos d’água, que a levou a conquistar o Prêmio Jabuti em 2017. Sua obra reuniu 15 contos abordando questões de miséria, desigualdade social e dilemas sobre o amor, a vida e a ancestralidade africana.

Principais obras de Conceição Evaristo

  • Ponciá Vicêncio (romance, 2003)
  • Becos da Memória (romance, 2006)
  • Poemas da recordação e outros movimentos (poesia, 2008)
  • Insubmissas lágrimas de mulheres (contos, 2011)
  • Olhos d’água (contos, 2014)
  • Histórias de leves enganos e parecenças (contos e novela, 2016)
  • Canção para ninar menino grande (romance, 2018)

Podemos perceber, então, que esses grandes escritoras e escritores negros são relevantes por suas obras de forte cunho social, ao denunciar a condição do negro no Brasil. Dessa forma, é fundamental difundir a literatura afro-brasileira para permitir que ela lute contra o racismo e retrate o cotidiano dessa grande parcela da população brasileira.

Agora que você já conhece um pouco mais da história desses grandes escritores negros que tal dedicar um tempo para conhecer suas obras? E não deixe de compartilhar essa história com seus colegas! 

Paloma Silva

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